Pôr-do-sol e uma paisagem deslumbrante. Mar, rochas e o sol se despedindo num tom alaranjado. Ao fundo escuto um coro de vozes masculinas gritando ¨chak-a-chak-a-chak”. Estou quase em estado de transe. Estou diante de um espetáculo de Kecak em Uluwatu, Bali.
Uma ida a Bali para mim não é completa sem assistir a uma performance de Kecak, conhecida também como a dança dos macacos. Kecak não é uma dança muito conhecida do público brasileiro, mas muito popular em Bali. É quase um estado de transe, sendo um misto de drama e dança. Originalmente era um ritual de transe de exorcismo acompanhado de um coro masculino. Nos anos 30, Walter Spies, pintor alemão, ficou interessado neste ritual quando morava em Bali e então junto ao dançarino balinês Wayan Limbak recriou-o em forma de teatro e dança, baseado no épico Hindu Ramayana. O príncipe Rama, herdeiro do trono do reino de Ayoda, e sua esposa Sita foram expulsos do reino pelo Rei Dasarata por causa de uma intriga da madrasta de Rama. O canto dos macacos é uma batalha do Ramayana na qual os macacos ajudam o príncipe Rama a lutar contra o terrível rei Ravana. Walter Spies e Wayan Limbak apresentaram aos visitantes da ilha o espetáculo e após a sua criação, grupos balineses de dança viajaram para fora da ilha ajudando a difundir o Kecak.
O figurino do espetáculo é simples, mas bonito. Normalmente são dezenas de homens ( o ideal é que sejam mais de cem ) vestidos de sarong quadriculado de preto e branco com uma faixa vermelha na cintura e na barra e despidos na parte de cima. Alguns colocam uma flor de hibisco atrás da orelha. Para mim um dos melhores lugares para a dança do Kecake é no templo de Uluwatu. Lá você pode conjugar a vista de um pôr-do-sol sobre o mar e ao mesmo tempo assistir à dança. Todos se reúnem em um teatro de arena ao ar livre. Em Ubud, no centro da ilha, também há lugares legais para asssistir, mas prefiro Uluwatu, a vista é de tirar o fôlego. Os homens posicionam-se em círculos e, repetidas vezes ,sentam e levantam sacudindo os braços, as mãos, gritando em coro¨chak-a-chak-a-chak”. O que torna o Kecak uma dança especial é a conjugação do figurino, vozes masculinas em coro repetindo quase sempre a mesma frase e um estado quase de transe..
Adoro aquele coro sacudindo as mãos e repetindo o tempo todo ¨chak-a-chak-a-chaka-chak”" Em alguns momentos há o predomínio de uma só voz masculina e os outros acompanhando ao fundo. Não entendo muito a história, na verdade fico meio hipnotizada com aquele canto. Gosto é da plasticidade das cenas , das expressões dos rostos dos integrantes da dança e do canto.
Quando termina o espetáculo já é noite e para completar o programa gosto de comer frutos do mar em um restaurante na areia da praia de Jimbaran. Fins de tarde assim me dão motivos para sempre querer voltar a Bali, mesmo sabendo que terei que enfrentar uma longa viagem.